quarta-feira, 22 de outubro de 2008

OS TRÊS PATETAS: CENAS RARAS (THREE STOOGES: EXTREME RARITIES, 2007) e OS TRÊS PATETAS: MELHORES MOMENTOS (THREE STOOGES: GREATEST ROUTINES, 2007)

Lançados nos Estados Unidos pela Legend Films e aqui no Brasil pela NBO, trata-se de dois DVDs obrigatórios para os fãs do “trio mais biruta das telas” – ainda mais a R$ 12,90 cada um, como você encontra na 2001 Vídeo.

Atenção: dizer que é “obrigatório para fãs” não significa dizer que são ótimos. Longe disso.

CENAS RARAS traz um pequeno documentário sobre a trajetória dos Três Patetas, iniciada em 1925; trailers de dois dos seis longas-metragens estrelados pelos rapazes (na época, já não tão rapazes assim) entre 1959 e 1965; alguns comerciais; e três insanas performances no programa televisivo STEVE ALLEN SHOW, em 1959.

MELHORES MOMENTOS (não se deixe enganar pelo título) nada mais é que os esquetes exibidos antes e depois dos desenhos animados do trio, com os próprios, em carne e osso, fazendo suas patetadas.

Os desenhos eram fraquinhos (há três deles como extras no DVD). Apesar de um pouco melhores, os esquetes live-action padecem de roteiros infantilóides e pobreza na produção.

O grande mérito dos DVDs é evidenciar o talento cômico do quarto terceiro pateta, o quase sempre execrado pelos fãs Joe DeRita.

Explico: os Três Patetas, na verdade, eram seis (no quadro abaixo, sempre da esquerda para a direita: Moe, Larry e Curly na primeira fileira e Shemp, Joe Besser e Joe DeRita na segunda).

A primeira formação foi reunida por Ted Heally, um comediante texano de enorme sucesso no teatro vaudeville norte-americano dos anos 1920 – a breve seqüência de um velho curta-metragem no qual ele aparece com o trio no DVD CENAS RARAS não dá pista alguma da razão de tal sucesso, visto que Heally sempre encarna um tipo rude e desengraçado.

Nos palcos, Heally usava como “escadas” (cômicos secundários que preparam a piada para o protagonista) os irmãos Moe e Shemp Howard – Moe é o brigão de cabelo tigela; Shemp, o idiota com cabelo dividido ao meio.

Quando em 1925 juntou-se à trupe Larry Fine, o do cabelo estilo palha de aço, estavam criados os Three Stooges (a palavra stooge significa algo como “capacho” e era usada para designar o “escada” no teatro vaudeville).

Em 1932, farto das constantes ameaças e bebedeiras de Heally, Shemp, o mais velho dos Howard, abandonou o barco.

Para substituí-lo, Moe recrutou seu irmão caçula, Jerome Howard.

Gordinho, de cabeça raspada e apelidado de Curly (“encaracolado”, em inglês), ele se tornaria o mais amado dos Patetas.

Moe, Larry e Curly mandaram Ted Heally plantar batatas e assinaram um contrato com a Columbia para uma série de curtas-metragens – o primeiro deles lançado em 1934.

Durante a filmagem do curta de número 97, em 1946, um derrame colocou fora de combate o pateta de maior talento, Curly.

Começaria então a linhagem dos “Terceiros Patetas”, sempre com Moe e Larry encabeçando o time.

Substituto natural do irmão caçula, que morreria em 1952, Shemp voltou ao posto que já havia ocupado nos palcos.
Ele fez 77 curtas dos Três Patetas até ser vitimado por um ataque cardíaco em 1955.

Joe Besser (1907-1988) assumiu o posto em 1956. Para mim, foi o início da pior fase dos Patetas.
Gordinho e careca, Besser não chegava aos pés de Curly ou aos joelhos de Shemp.

Encarnava um tipo meio efeminado, espécie de adulto com mentalidade de bebê.

Para piorar, exigia que Moe não o espancasse nos filmes – conseqüentemente, Larry passou a ser o único saco de pancada e a receita do humor da trinca desandou.

Em dezembro de 1957, a Columbia desativou seu departamento de curtas e botou os Três Patetas no olho da rua, sem ao menos dizer obrigado pelos quase 24 anos de bons serviços prestados.

No total, Moe, Larry, Curly, Shemp e Joe rodaram 190 curtas-metragens para o estúdio.

Moe e Larry planejavam continuar a carreira se apresentando em night clubs, mas Joe recusou o convite.

Então, o inesperado aconteceu.

Em janeiro de 1958, os curtas dos Três Patetas começaram a ser exibidos na televisão.

E uma nova geração de crianças caiu de amores por aqueles atores que pareciam personagens de desenho animado, com seus arroubos de violência dos quais ninguém saia ferido.

Joe DeRita foi agregado ao grupo para uma série de shows. O primeiro deles, em outubro de 1958, foi um desastre.

Filho de uma dançarina e de um técnica de palco, DeRita crescera habituado à idéia de que “o show não pode parar”.

Seguiu ensaiando e em pouco tempo já havia se tornado um perfeito terceiro pateta.

Não hesitou em adotar o nome artístico de Curly-Joe, que fazia menção a dois de seus antecessores no posto.

Conforme a audiência dos curtas crescia na TV, vieram os convites para participações em programas de variedade como o de Steve Allen.

Histórias em quadrinhos.

Desenhos animados.

E até longas-metragens, um deles produzido pela Fox e os outros cinco pela, vejam só, pela Columbia.

A apresentação em feiras e eventos lhes rendeu a fortuna que seus curtas nunca lhes havia propiciado – e Joe Besser deve ter morrido arrependido da decisão de abandonar o grupo.

Se muitas crianças não se davam conta de que aquele Curly não era o mesmo dos curtas mais engraçados que viam na TV, Joe DeRita merece o crédito.

A missão dele não era suprir a ausência de um pateta qualquer, e sim do mais popular de todos eles – algo como substituir o Didi nos Trapalhões, para usarmos um exemplo nacional.

Entre os vários fatores que podem ter contribuído para que Curly-Joe caísse em desgraça entre os fãs, está a idade avançada de seus colegas de cena.

Embora continuasse sendo o cérebro do grupo, Moe era 12 anos mais velho que ele; Larry, 7 anos. Não tinham a mesma energia (nem a mesma quantidade de cabelo) dos tempos em que contracenavam com o Curly original.

Além disso, diante das insistentes reclamações de associações de pais e mestres, os Patetas tiveram de diminuir a violência de seus números.

Para piorar, os roteiros não eram mais tão bons quanto os de outrora, como bem demonstram os números contidos no DVD MELHORES MOMENTOS.

Mas nas apresentações no STEVE ALLEN SHOW vistas em CENAS RARAS, fica evidente o timing de Curly-Joe e sua perfeita interação com Moe e Larry ao recriar velhas rotinas dos Três Patetas.

Primeiro, eles entram cantando versos como “We’re back again / Back again / It’s great to say hello / Hello, hello, hello”, para em seguida fazerem o esquete da operação, de um humor negríssimo.

Depois, Moe incorpora um diretor de cinema, Larry um astro de faroeste e Curly-Joe seu desafortunado dublê.

Para terminar, uma rotina clássica: a do Marajá (Curly-Joe) que não enxerga um palmo diante do nariz, mas se diz um exímio atirador – e usa Larry para demonstrar suas habilidades.

Genro de Moe e diretor de alguns longas dos Três Patetas, Norman Maurer parece ter matado a charada sobre Joe DeRita: “Ele foi o melhor substituto de Curly que os Patetas tiveram. Joe era ótimo em improvisações. Ele era como Curly em muitos aspectos, com seu peso e sua graça de balé. Joe podia fazer uma dancinha – não exatamente como Curly, mas de maneira quase tão graciosa, e era difícil acreditar que um cara daquele tamanho estivesse fazendo aquilo”.

Fora dos palcos e das telas, DeRita gostava de música clássica.

Fora e dentro dos palcos e das telas, curtia um charuto, que Moe vivia amassando na cara dele.

Em tempos politicamente corretos como os de hoje, soa estranho que um personagem infantil pudesse fumar à vontade em cena.

Joe DeRita também pode ter desagradado os fãs ao dar a seguinte declaração: “Eu não acho que os Patetas eram engraçados. Eu não estou zoando, estou dizendo a verdade – eles eram físicos, mas eles não tinham nenhum humor em cima deles. Pegue, por exemplo, o Gordo e o Magro. Eu posso assistir a seus filmes e ainda rir deles, e talvez eu já tenha assistido a esses filmes quatro ou cinco vezes. Mas quando eu vejo aquela torta ou aquele garrafa-sifão de soda, eu sei que aquilo não está ali por acaso. Vai ser usado para algo. Eu estive com os Patetas por 12 anos e foi uma associação muito prazerosa, mas eu simplesmente não acho que eles eram engraçados.”

Excesso de arrogância? Ou de modéstia?

Seja como for, CENAS RARAS e MELHORES ROTINAS serviram para me convencer de que o quarto terceiro pateta foi, sim, um comediante de recursos.

Se isso significa que os fãs dos Três Patetas passarão a boicotar meu blog, paciência.

E você? O que achava de Curly-Joe DeRita (1909-1993)?


P.S. 1: Após a morte de Larry, em 1975, Moe chegou a planejar uma quinta formação dos Três Patetas. Emil Sitka, excelente coadjuvante que pode ser vista em vários quadros do DVD MELHORES MOMENTOS, faria o papel de Harry. Com a morte de Moe no mesmo ano, só restou esta foto.




P.S. 2: Décadas após o fim do trio, os Patetas continuam rendendo boas piadas visuais nas mãos dos fãs. É o caso desse cartaz que lança o Curly original para presidente dos Estados Unidos. Páreo duro para o Bush substituto daquele outro Bush.















P.S. 3: Outro bom exemplo. Aliás, ótimo.








P.S. 4: O Brasil também teve sua versão dos Três Patetas. Entre 1979 e 1982 a TV Tupi levou ao ar o infantil OS PANKEKAS, estrelado por Mário Alimari, Sandrini e Rony Cócegas. Devem ter feito algum sucesso, pois até um filme ganharam: OS PANKEKAS E O CALHAMBEQUE DE OURO. Se alguém aí tiver uma cópia, escreva para mim.

6 comentários:

Heraclito disse...

Obrigado pela aula sobre os 3 Patetas!!! Só seria legal voce acrescentar o nome de cada um abaixo daquelas fotos dos 6. Sei que lendo o texto dá pra sacar qual eh qual, mas facilitaria bastante. De resto ficou perfeito!

Rodrigo Pereira, um sujeito que gosta de cinema disse...

Oi, HERAX. Tens toda razão, e eu já fiz as mudanças que vc me sugeriu (além de outras pequenas alteraçõezinhas, que não vinha conseguindo fazer por talta de tempo). Que bom que vc gostou. É engraçado como até a minha geração, falar dos Patetas era como falar de, sei lá, LOST hoje - gostando ou não, todo mundo sabia do que se tratava. Lembro-me que em julho a Globo trocava o nome da SESSÃO DA TARDE para FESTIVAL DE FÉRIAS e realizava "semanas temáticas". Então havia uma semana só de filmes do Jerry Lewis, outra só com filmes dos Trapalhões, outra só com filmes do Roberto Carlos e, voilá, uma só com os Patetas. Assim, o primeiro "terceiro pateta" que eu conheci foi o Joe DeRita, dos longas-metragens. Somente muitos anos depois vim a saber que existira outro "Curly" antes dele.

Miguel Andrade disse...

Tô faz tempo pra comprar estes DVDs... Você "desanuviou" minhas idéias!

Renzo Mora disse...

Adorei ver que existe mais alguém que idolatra os 3 patetas como eu.
Inclui seu site no blogroll do meu site - apareça lá para uma visita (avise antes para eu passar um café)
http://renzomora.wordpress.com/

Raphael disse...

Despois desse curso intensivo sobre Os Três Patetas, decidi procurar os vídeos nos torrents e descobri uma coletânea com tudo! São mais de 30GB!

Acho que preciso de um HQ de 1tera!!! heheheeh

Amei os textos!

Cícero M. Soares disse...

ELE É PARECIDO COM O DONO DA REDE TV
http://2.bp.blogspot.com/_n1ZtwufbVKw/SP8uykoWPVI/AAAAAAAAAPM/YsqhhjJVQ-w/s1600-h/TERCEIROS_PATETAS.jpg

http://www.otempo.com.br/otempo/fotos/20080415/fotoavulsa_14042008195341.jpg