quinta-feira, 16 de outubro de 2008

MAMMA MIA! O FILME (MAMMA MIA! THE MOVIE, 2008)

Eu consigo acreditar que um astro do porte de Don Lockwood se apaixone por Kathy Selden, uma corista em início de carreira. E que a escale para dublar a voz de gralha de sua co-estrela, Lina Lamont, numa produção hollywoodiana.

Eu também acredito na possibilidade da socialite Milo Roberts bancar a marchand de Jerry Mulligan, um pintor norte-americano expatriado em Paris, só para conquistá-lo. E que Jerry possa, por sua vez, trocá-la pela encantadora francesinha Lise Bouvier.

Aceito na boa que o artista circense Serafin finja ser o pirata Macoco com que sonha a casta Manuela Alva só para ganhar o coração dela – muito embora o verdadeiro Macoco esteja bem mais perto do que eles imaginam.


Por mais que me esforce, porém, não consigo acreditar que quando jovem Donna Sheridan (Meryl Streep) tenha dormido com Sam Carmichael (Pierce Brosnan), Harry Bright (Colin Firth) e Bill Anderson (Stellan Skarsgård) – um de cada vez, bem entendido – conforme se vê em MAMMA MIA! (2008).

Trata-se de uma adaptação para o cinema de um musical estreado em 1999 no West End londrino e três anos depois na Broadway, sempre com enorme êxito de público.

No libreto, Donna Sheridan vive com sua única filha numa ilha grega, onde administram um hotel caindo aos pedaços.


Em segredo, a moça convida para seu casamento os três homens que podem vir a ser seu pai, cuja identidade a mãe se recusa a lhe revelar.

O grande diferencial da peça reside na trilha sonora, que se vale de antigos hits da banda sueca de pop-rock ABBA para “amarrar” a história.

Dirigida por Phyllida Lloyd, também responsável pela primeira montagem teatral, a versão para o cinema serve apenas para provar que MAMMA MIA! nada tem de cinematográfico.

Não é porque os personagens cantam (mal) e dançam (pessimamente) o tempo todo que um filme pode prescindir por completo da verossimilhança.


A personagem de Meryl Streep não parece conhecer realmente os aldeões gregos que trabalham em seu hotel.

O extinto trio vocal Donna e as Dynamos, formado pela protagonista mais duas amigas, parece nunca ter existido – e a seqüência em que as três se reúnem para animar uma festa beira o ridículo, no mal sentido.

As duas melhores amigas de Sophie Sheridan (Amanda Seyfried), a noiva, cantam HONEY HONEY com ela no começo do filme e depois, sem mais nem menos, praticamente desaparecem da história.


Sky (Dominic Cooper), o noivo, fica furioso ao descobrir que Sophie convidara os três prováveis pais dela para a festa. Poucas cenas adiante, espera-a sorridente no altar, como se a briga nem tivesse ocorrido.

O que, então, impede o espectador de deixar o cinema antes do filme acabar?


O bem-dosado equilíbrio entre as canções do ABBA, ora mergulhando de cabeça na linha dor-de-cotovelo, ora esbanjando alto-astral – muita gente vai se surpreender ao descobrir que aquelas músicas tantas vezes ouvidas nos programas radiofônicos de flashback pertencem à mesma banda.

Sem as composições de Benny Andersson, Björn Ulvaeus e Stig Anderson, o filme de Phyllida Lloyd seria insuportável.

Outra séria deficiência da empreitada diz respeito às coreografias – ou à falta delas.



Grandes coreógrafos como Michael Kidd, Robert Alton, Nick Castle, Hermes Pan e Gene Kelly, que erigiram alguns dos mais belos balés já encenados diante de uma câmera, cobririam o rosto de vergonha diante de MAMMA MIA!

Os personagens não dançam, não vibram, não sapateiam. Cantam uns para os outros, como se estivessem num teatrinho do colégio.

O número com THE WINNER TAKES IT ALL sintetiza bem as limitações do projeto.

A letra corta-pulsos da canção, embora belíssima, não se encaixa muito bem na história. E Pierce Brosnan e Meryl Streep simplesmente não sabem o que fazer em cena:





Digam aí se não lembra a banda performática Vexame cantando SIGA SEU RUMO, hino brega gravado originalmente pela dupla argentina Pimpinela:







P.S. 1: Serafin é o personagem de Gene Kelly em O PIRATA (1948), de Vincente Minnelli. Judy Garland interpreta Manuela Alva




P.S. 2: Jerry Mulligan é o personagem de Gene Kelly em SINFONIA DE PARIS (1951), de Vincente Minnelli. Leslie Caron faz Lise Bouvier, cabendo a Nina Foch o papel de Milo Roberts



P.S. 3: Don Lockwood é o personagem de Gene Kelly naquele que eu considero o maior filme de todos os tempos: CANTANDO NA CHUVA (1952), dele e Stanley Donen. Debbie Reynolds e Jean Hagen vivem Kathy Selden e Lina Lamont, respectivamente












P.S.4: Gene Kelly era foda!

10 comentários:

Mari Mello disse...

Ro,
Concordo que o filme tenha todos os problemas narrativos e incoerências do mundo. Mas me diverti horrores naquelas 2 horinhas. E posso citar aqui o nome de várias pessoas que sentiram o mesmo. Cinema, para mim, é diversão. E Mamma Mia me divertiu, me fez esquecer um dia estressante de trabalho. Ainda que isso só tenha acontecido por causa das músicas do Abba, beleza. Valeu o ingresso. E quer saber? Eu veria de novo.
Um beijo!

daniel caetano disse...

Gene Kelly era genial mesmo, e é curioso como danças filmadas se tornaram um negócio chato e mal-feito desde, sei lá, desde que o Fosse morreu.

Ailton disse...

Eu, como dormi durante o filme, não sei se posso dar meu pitaco. Mas que filmezinho chato, hein!! Melhor ver dez vezes CANÇÕES DE AMOR!

Rodrigo Pereira, um sujeito que gosta de cinema disse...

MARI MARI,

Os chineses também se divertem com espetáculos como comprar frangos vivos para os tigres do PARQUE DOS TIGRES SIBERIANOS, em Harbin, estraçalharem. Daí a considerar isso um bom espetáculo tem uma distância enorme..

Vejo diversão proporcionada como uma parte, jamais como o todo, de uma obra cinematográfica.

Entre MAMMA MIA!, que diverte pelas músicas, e ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, que diverte tanto quanto, por n razões (incluindo a música), qual é melhor?

Acho estranho que as pessoas concordem que a linguagem literária e a linguagem pictórica são importantes na avaliação de um livro e um quadro, mas que a linguagem cinematográfica não conte na hora de avaliar um filme.

Quem mandou ser uma arte popular, né?

Rodrigo Pereira, um sujeito que gosta de cinema disse...

DANIEL CAETANO, concordo contigo em tudo. Gene Kelly era genial mesmo, não trocaria a carreira dele pela da Meryl Streep.

Acho que o que destrói boa parte dos musicais contemporâneos é o fato de serem adaptações da Broadway.

A galera que trabalhava na Unidade Freed, na Metro, elaborava coreografias especialmente para a câmera.

Por isso funcionavam tão bem no cinema.

MOULIN ROUGE, CHICAGO e até MAMMA MIA foram originalmente concebidos para o palco.

Tá rolando aí uma transposição de linguagem meio às cegas.

Uma coreografia para o cinema deve ser elaborada de maneira distinta.

Ou melhor, deveria.

Na prática neguinho ensaia a mesma coreografia, filma com 30 câmeras e depois picota tudo na montagem para esconder os erros.

O resultado é esse aí, que lembra as coreografias da Banda Vexame.

Rodrigo Pereira, um sujeito que gosta de cinema disse...

AILTON, MAMMA MIA! é chato mesmo.

Andei repensando, depois de ter escrito esse post, e cheguei à conclusão que o problema em torno do qual gira o filme é completamente irrelevante.

Saber quem é o pai da menina (pra quê?), a mãe que se recusa a contar (por quê?), nada disso importa para quem vê o filme.

Só restam, então, as canções do ABBA.

Não vi CANÇÕES DE AMOR.

Acha que eu vou gostar?

Ailton disse...

Se vc vai gostar eu não sei, mas com certeza achará melhor que esse MAMMA MIA! Eu adorei o filme. E as canções são maravilhosas. Só a cópia em digital que está uma bosta. Mesmo assim vale muito ver na telona.

Rodrigo Pereira, um sujeito que gosta de cinema disse...

Sugestão anotada, Ailton. Vou esperar sair em DVD, porque pelo jeito não se encontra mais em cartaz nos cinemas daqui. Obrigado.

R@Q disse...

olá,
por acaso você sabe o nome de um filme (acho que só eu vi) que se passa na italia, com uma trama parecida? uma moça tem tres possiveis pais, que a mãe namorou na época da guerra (eram soldados americanos) e eles retornam para a italia anos depois?) Só não era musical.
abraços

kal disse...

Ué, cada um tem seu gosto diferente do outro, a Mari e seus amigos se divertiram e daí? Qual o problema de se divertir com algo como Mamma Mia? Ainda bem que o mundo não é formado de uma unica opinião.