BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS, de Christopher Nolan, mega-sucesso de bilheteria que deve sair em DVD no Brasil antes do Natal (nos Estados Unidos o lançamento está previsto para 9 de dezembro). Duas “teses” foram marteladas com vigor na imprensa brasileira: a de que o filme consegue transpôr um herói de quadrinhos para o “mundo real” e a de que o filme seria uma “metáfora da Era Bush”.
O primeiro conceito é tão nonsense quanto uma novela das 8 sobre física quântica. Super-heróis precisam e devem habitar uma dimensão paralela, só são verossímeis num universo diferente do nosso – o mesmo que permite ao Super Homem voar e a Tony Stark construir a armadura do Homem de Ferro.O CAVALEIRO DAS TREVAS pode ser mais violento que os filmes anteriores do Batman. Pode ser mais assustador. Mais niilista, até. Habita, porém, o universo que lhe é de direito: o da fantasia, dos heróis vestidos de morcego e vilões maquiados de palhaço. Graças a Odin!
Dito isso, nem vem ao caso discutir a tal “metáfora da Era Bush”, uma muleta que a crítica brasileira inventou para quando bate a preguiça de refletir sobre um filme – e também para parecer mais “engajadinha” e “consciente dos problemas mundiais”. Pelas barbas de Odin, poupem-me.
O grande mérito está no roteiro, escrito pelo próprio diretor e por seu irmão, Jonathan. Os Nolan souberam aproveitar o que havia de melhor em duas clássicas histórias em quadrinhos do personagem – a minissérie BATMAN: ANO UM (1987), de Frank Miller e David Mazzucchelli, e a graphic novel A PIADA MORTAL (1988), de Alan Moore e Brian Bolland – para construir um verdadeiro tratado sobre dualidade. Dualidade que, por sinal, é o cerne do universo dos super-seres desde que um tal de Clark Kent tirou os óculos no gibi pela primeira vez e disse que aquilo era um trabalho para o Super-Homem.
É essa dualidade tão bem explorada no conflito entre Batman (Christian Bale) e o Coringa (Heath Ledger) que me faz lamentar o tão rápido processo de transformação, ascensão e queda do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) no vilão Duas-Caras (Aaron Eckhart). Taí um personagem que merecia passar um filme inteiro enfrentando o Homem-Morcego. Nada me tira da cabeça que esse patamar mínimo de dois vilões por filme é uma exigência do departamento de marketing dos estúdios para poderem licenciar mais bonequinhos – haja visto a inflação de vilões entre o primeiro e o teceiro episódio da trilogia HOMEM-ARANHA.
O desperdício do Duas-Caras não impede que esse novo Batman ponha no chinelo BATMAN (1989) e BATMAN – O RETORNO (1992), de Tim Burton, BATMAN ETERNAMENTE (1995) e BATMAN & ROBIN (1997) de Joel Schumacher, e mesmo BATMAN BEGINS (2005), do próprio Christopher Nolan. Aliás, não sou admirador da obra pregressa do diretor em questão. Seu AMNÉSIA (2000) é fácil de esquecer, INSÔNIA (2002) faz dormir, BATMAN BEGINS (2005) foi um mal começo e O GRANDE TRUQUE (2006)... Bem, você pegou o espírito.
São filmes que usam recursos fáceis, mas pretensamente inteligentes, num esforço para impactar o espectador desavisado. Não funcionam muito bem num universo realista, mas caem feito luva no mundo não-realista dos super-heróis.Ainda tentando se adaptar a esse novo universo em BATMAN BEGINS, Nolan errou a mão feio e fez um filme quase tão ruim quanto os de Joel Schumacher. Com um roteiro melhor estruturado para BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS, ele encontrou o equilíbrio entre os truques narrativos que tanto aprecia e o mundo dos super-heróis. E produziu, enfim, uma obra-prima em sua filmografia.
PS1: Heath Ledger, na pele do Coringa, parece sempre ter a boca transbordante de saliva, como se os cortes nas laterais o impedissem de conter a água na boca que seus atos criminosos geramPS2: É um show de interpretação, que relega ao limbo o Coringa de Jack Nicholson em BATMAN (1989) e o de Cesar Romero no bat-seriados dos 60.
PS3: Ledger morreu antes de o filme ter estreado. Há quem defenda que o ator estava “possuído” pelo personagem que interpretara. Pelas barbas de Odin, poupem-me.




