quarta-feira, 8 de outubro de 2008

BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS (THE DARK KNIGHT, 2008)

BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS, de Christopher Nolan, mega-sucesso de bilheteria que deve sair em DVD no Brasil antes do Natal (nos Estados Unidos o lançamento está previsto para 9 de dezembro). Duas “teses” foram marteladas com vigor na imprensa brasileira: a de que o filme consegue transpôr um herói de quadrinhos para o “mundo real” e a de que o filme seria uma “metáfora da Era Bush”.


O primeiro conceito é tão nonsense quanto uma novela das 8 sobre física quântica. Super-heróis precisam e devem habitar uma dimensão paralela, só são verossímeis num universo diferente do nosso – o mesmo que permite ao Super Homem voar e a Tony Stark construir a armadura do Homem de Ferro.

O CAVALEIRO DAS TREVAS pode ser mais violento que os filmes anteriores do Batman. Pode ser mais assustador. Mais niilista, até. Habita, porém, o universo que lhe é de direito: o da fantasia, dos heróis vestidos de morcego e vilões maquiados de palhaço. Graças a Odin!

Dito isso, nem vem ao caso discutir a tal “metáfora da Era Bush”, uma muleta que a crítica brasileira inventou para quando bate a preguiça de refletir sobre um filme – e também para parecer mais “engajadinha” e “consciente dos problemas mundiais”. Pelas barbas de Odin, poupem-me.


O grande mérito está no roteiro, escrito pelo próprio diretor e por seu irmão, Jonathan. Os Nolan souberam aproveitar o que havia de melhor em duas clássicas histórias em quadrinhos do personagem – a minissérie BATMAN: ANO UM (1987), de Frank Miller e David Mazzucchelli, e a graphic novel A PIADA MORTAL (1988), de Alan Moore e Brian Bolland – para construir um verdadeiro tratado sobre dualidade. Dualidade que, por sinal, é o cerne do universo dos super-seres desde que um tal de Clark Kent tirou os óculos no gibi pela primeira vez e disse que aquilo era um trabalho para o Super-Homem.


É essa dualidade tão bem explorada no conflito entre Batman (Christian Bale) e o Coringa (Heath Ledger) que me faz lamentar o tão rápido processo de transformação, ascensão e queda do promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) no vilão Duas-Caras (Aaron Eckhart). Taí um personagem que merecia passar um filme inteiro enfrentando o Homem-Morcego. Nada me tira da cabeça que esse patamar mínimo de dois vilões por filme é uma exigência do departamento de marketing dos estúdios para poderem licenciar mais bonequinhos – haja visto a inflação de vilões entre o primeiro e o teceiro episódio da trilogia HOMEM-ARANHA.


O desperdício do Duas-Caras não impede que esse novo Batman ponha no chinelo BATMAN (1989) e BATMAN – O RETORNO (1992), de Tim Burton, BATMAN ETERNAMENTE (1995) e BATMAN & ROBIN (1997) de Joel Schumacher, e mesmo BATMAN BEGINS (2005), do próprio Christopher Nolan. Aliás, não sou admirador da obra pregressa do diretor em questão. Seu AMNÉSIA (2000) é fácil de esquecer, INSÔNIA (2002) faz dormir, BATMAN BEGINS (2005) foi um mal começo e O GRANDE TRUQUE (2006)... Bem, você pegou o espírito.


São filmes que usam recursos fáceis, mas pretensamente inteligentes, num esforço para impactar o espectador desavisado. Não funcionam muito bem num universo realista, mas caem feito luva no mundo não-realista dos super-heróis.

Ainda tentando se adaptar a esse novo universo em BATMAN BEGINS, Nolan errou a mão feio e fez um filme quase tão ruim quanto os de Joel Schumacher. Com um roteiro melhor estruturado para BATMAN, O CAVALEIRO DAS TREVAS, ele encontrou o equilíbrio entre os truques narrativos que tanto aprecia e o mundo dos super-heróis. E produziu, enfim, uma obra-prima em sua filmografia.



PS1: Heath Ledger, na pele do Coringa, parece sempre ter a boca transbordante de saliva, como se os cortes nas laterais o impedissem de conter a água na boca que seus atos criminosos geram

PS2: É um show de interpretação, que relega ao limbo o Coringa de Jack Nicholson em BATMAN (1989) e o de Cesar Romero no bat-seriados dos 60.


PS3: Ledger morreu antes de o filme ter estreado. Há quem defenda que o ator estava “possuído” pelo personagem que interpretara. Pelas barbas de Odin, poupem-me.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

COSTINHA E O KING MONG (1977)

E ainda tem gente que não acredita... Olha aí ao lado um xerox do cartaz original dessa pérola dirigida por Alcino Diniz. Na trama, o Rei da Selva (Costinha) é aprisionado pelos terríveis homens-leopardo e tem de escolher: casa-se com a rainha deles (Wilza Carla) ou será entregue em sacrifício ao deus-macaco de 15 metros de altura King Mong (quem teria sido o bravo ator debaixo da felpuda fantasia de gorila naquele calor tipicamente carioca?).

Costinha foi um comediante muito popular nos anos 70, com cara de velho safado e um enorme repertório de piadas sujas - ou, como se dizia à época, de baixo calão. Embora tenha sido uma vedete lindíssima, Wilza Carla será para sempre lembrada por sua fase gorducha, quando encarnava a gorda com a libido exacerbada em programas televisivos e pornochanchadas. Hoje, ela desempenha um papel bem mais triste: o da ex-atriz que volta-e-meia aparece em programas como o da Luciana Gimenez, magra e decrépita, implorando que lhe dêem uma chance de voltar à ativa. O elenco conta ainda com Ferrugem (comediante com uma deficiência que dificultava o seu crescimento mas lhe facilitava viver o garoto safadinho em programas humorísticos), Roberto Guilherme (o eterno Sargento Pincel de OS TRAPALHÕES), Canarinho (habitué de A PRAÇA É NOSSA desde tempos imemoriais) e Nídia de Paula (diva das pornochanchadas de então, aqui no papel de Jane).

O surpreendente em COSTINHA E O KING MONG é o fato de se tratar de um filme de censura livre, inclusive lançado em julho, para aproveitas as férias escolares. Havia duas forças em ação para gerar uma obra dessas: o KING KONG produzido em Hollywood por Dino De Laurentiis e o enorme sucesso no Brasil dos filmes dos Trapalhões. Alcino Diniz e Costinha aproveitaram a gigantesca campanha publicitária da superprodução hollywoodiana para lançar simultaneamente sua paródia terceiro-mundista. A referência eram Renato Aragão e cia., que vinham batendo recordes de bilheteria parodiando contos de fada, heróis da literatura, filmes e seriados estrangeiros - O TRAPALHÃO NO PLANALTO DOS MACACOS (1976), por exemplo. A moda era levar comediantes da TV para o cinema, em busca do público infantil. Calcados nessa fórmula, foram produzidos COSTINHA, O REI DA SELVA (1976), COSTINHA E O KING MONG (1977), O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE CRUZEIROS CONTRA AS PANTERAS (1978) e AS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOÉ (1979) - os quatro estrelados por Costinha, todos com censura livre.

O humor de COSTINHA E O KING MONG é simplório, com o herói reclamando do congestionamento de cipós ou dizendo que Wilza Carla está mais para elefante do que para rainha dos homens-leopardo (nos anos 1970, "politicamente" e "correto" eram palavras que não andavam tão juntas como hoje em dia). O que de mais encantador restou ao filme reside naquilo que parecia ser seu ponto fraco na época do lançamento: os efeitos especiais mal-feitos. Como não rir do sofá em forma de mão, revestido de lona preta, que faz as vezes de mão do King Mong? Ou da sempre imóvel máscara do gorila? Ou da miniatura do Cristo Redentor que Mong escala? Tem seu encanto, como assistir a uma peça de Shakespeare encenada no picadeiro de um circo mambembe.

P.S. 1: Não confunda COSTINHA E O KING MONG (1977), de Alcino Diniz, com KING KONG (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, KING KONG (1976), de John Guillermin, ou KING KONG (2005), de Peter Jackson

P.S. 2: Se alguém aí tiver uma cópia de O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE CRUZEIROS CONTRA AS PANTERAS para vender, pago até seis milhões de cruzeiros novos por ela.